Nilza. Esse era o nome no número de peito cor-de-rosa daquele corredor – um rapaz alto, perfil nada atlético, nitidamente acima do peso, para não usar palavras mais singelas que hoje em dia podem resultar em processo, sob rótulo de bullying.
Nilza. Esse era o nome
de sua mãe, que, após travar brava luta contra um câncer de mama, veio a falecer dois
dias antes daquele evento, justamente a Corrida e Caminhada contra o Câncer de Mama.
No ano passado, Nilza
havia participado dessa caminhada ao lado de familiares e amigos que juntos lutavam
aquela batalha que, até então, parecia ganha. E ela estava novamente inscrita este
ano, assim como seus outros dois filhos e várias pessoas de sua abençoada
família. A equipe se chamaria "Vai Nilza", tinha comentado há algum tempo o meu personal trainer e grande amigo, professor Alexandre de Andrade, irmão caçula da Nilza.

Ultimamente, a cada notícia de piora e de recuperação, eu me perguntava o que faz uma mulher ser tão guerreira e tão forte. Vontade de viver, sem dúvida. Mas não é o suficiente para passar por tantas situações: como médica, sei disso. Força e apoio de uma família unida? Haja força, haja união. Fé? Poxa... haja fé, pensava.
Na sexta-feira à noite, eu tinha ido ao seu velório. Tristeza indescritível. Doía-me o peito, de ver a dor das pessoas. Mas havia também algo de sereno naquelas pessoas. Acho, também, que era fé.
Não consegui ir ao enterro, que foi no sábado. Lembrei-me da corrida do dia seguinte e me ocorreu que eles pudessem ir, mas fiquei com a hipótese mais provável de que todos estariam tristes demais, além de obviamente cansados para se levantarem cedo num domingo muito frio.
Eu havia perdido a inscrição para essa corrida; então, só fui com a intenção de assistir e fotografar. E nem procurei saber se o Alexandre e a família estavam lá.
Pois, estavam. Lacinho preto no peito ou no braço, lágrimas e
sorrisos nos rostos abatidos, estavam lá. Unidos como nunca. Fortes.
Soube que o Alexandre tinha terminado sua corrida de 5 km e partido novamente pelo percurso para encontrar os filhos e sobrinhos da Nilza que ainda estavam caminhando. Segui, então, em sentido contrário ao da chegada, para ir de encontro com eles. A corrida já estava sendo encerrada e o staff retirava os apetrechos do percurso e a CET estava prestes a liberar o trânsito da via bloqueada.

Quando se aproximaram, gritei o mais alto que pude: "VAI NILZAAAA!!" Em resposta, eles se deram as mãos e levantaram os braços, todos juntos. Enxerguei, então, o número de peito cor-de-rosa da Nilza brilhando no peito de um dos filhos. Chorei.
Aquela imagem, pensei, era a essência do que a Nilza gostaria: sua família sempre unida e forte, animada, lutando, sorrindo. Seu
nome – ali representado pelo número de peito cor-de-rosa no peito de um corredor sem
inscrição – brilhará para sempre, no peito dos seus filhos e de todos aqueles que
Deus inscreveu em alguma parte da sua história.
Vá em paz, Nilza. Aqui estamos inscritos na Vida e continuaremos nossa corrida por ela, com o seu número de peito cor-de-rosa em nossos corações. E a medalha é sua, pois você completou com louvor a sua caminhada.