Três meses. Esse foi o tempo que treinei –
muito irregularmente – para ir de meio paradona a uma meia maratona. A Meia Maratona Internacional
do Rio de Janeiro/2017. É claro, então, que não
tinha como estar adequadamente preparada. Mas fui assim mesmo, com a cara, a coragem e os meus fartos quilos
extra.
Ao
se aproximar a data da corrida, como de costume, fiquei pensando em alguém para
dedicar a corrida e a medalha. Escolhi a Janet Sidy Donio – ou simplesmente
Jan, minha amiga e companheira de trabalho voluntário no Terapia Cão Carinho.
Uma pessoa que eu já admirava bastante e que ultimamente aprendi a admirar
muito mais.
A
Jan é uma profissional bem-sucedida que vive viajando a trabalho. Uma moça
bonitona e cheia de vida, ativa, alegre, sensível, generosa. Do tipo que está
sempre de bem com a vida e vai resolvendo problemas e vencendo obstáculos –
pequenos ou grandes – sem fazer estardalhaço. E é exatamente assim que ela
continua, agora que teve câncer de mama, foi operada e está passando por
quimioterapia.
Dia desses, ela postou no Facebook umas fotos de tirar o fôlego – ela e uma amiga fazendo stand up paddle ao por-do-sol, em Fortaleza.
E uma foto dela na praia, olhando aquele entardecer lindo. Ela, de costas, absolutamente careca. Absolutamente linda.
E a descrição da postagem: fazendo do limão uma limonada.
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(Foto da internet) |
Tentando
me inspirar nesse exemplo, resolvi dedicar esta meia maratona à Jan. Sim, consciente
de toda a minha falta de preparo.
x-x-x
Eu tinha acreditado na previsão do tempo que prometia uma manhã de temperatura amena e estava me sentindo muito bem no início da corrida. Por isso, puxei um ritmo acima do que vinha treinando ultimamente. Como sempre, a cada marca de km eu agradecia mentalmente aos meus treinadores, professores Alexandre de Andrade e Nelson Evêncio. E depois, “falava” com a Jan: Tá aí, mais um quilômetro pra você!
Lá
pelo km 4, apesar de estar correndo sem sofrer, comecei a desconfiar que a
previsão teria errado grosseiramente, pois sentia muito calor. Quando caí na
real que estava mesmo muito quente, já estava no km 15 e embora tenha feito uma
corrida bem satisfatória para as minhas condições atuais, estava muito cansada
e talvez um pouco desidratada.
Parei
cerca de um minuto para tomar água e descansar e pensei que poderia retomar o
ritmo. Meu papo com a “minha Jan interior” foi: ficar mal depois de uma sessão
de quimio deve ser assim... Você acha que não vai aguentar, aí você para,
descansa um pouco e em seguida retoma a vida, certo?
Errado.
Comecei a correr, mas não deu para manter o ritmo. Em outras épocas, teria
mantido um trote até voltar a me sentir melhor e acelerar de novo. Mas desta
vez tinha um quê de conformismo: eu não estava mesmo preparada para muito mais
do que 15 km. Escolhi, então, uma solução que nunca* antes tinha usado numa
corrida: ANDEI.
(*Obs: esse "nunca" é quase verdade, porque no ano passado, durante a Maratona do Rio, andei uns 50 metros)
Eu me considerava uma ótima administradora de corridas – sempre consegui administrar meu ritmo de acordo com as condições do momento, minhas e externas. E me orgulhava de nunca ter andado numa prova de rua.
Mas desta vez foi bem assim: foda-se, vou andar mesmo. Afinal, eu não estou preparada mesmo. Desculpe, Jan... mas deve ter dias em que você faz isso também; dá uma andadinha porque correr fica difícil, né não? Aqueles dias em que os limões vêm um pouco mais azedos do que a média... ou talvez até meio amarguinhos...
(*Obs: esse "nunca" é quase verdade, porque no ano passado, durante a Maratona do Rio, andei uns 50 metros)
Eu me considerava uma ótima administradora de corridas – sempre consegui administrar meu ritmo de acordo com as condições do momento, minhas e externas. E me orgulhava de nunca ter andado numa prova de rua.
Mas desta vez foi bem assim: foda-se, vou andar mesmo. Afinal, eu não estou preparada mesmo. Desculpe, Jan... mas deve ter dias em que você faz isso também; dá uma andadinha porque correr fica difícil, né não? Aqueles dias em que os limões vêm um pouco mais azedos do que a média... ou talvez até meio amarguinhos...
Fui,
então, alternando trote e caminhada até o final, falando com a minha Jan interior o tempo
todo. Quando ficava muito difícil, eu me perguntava como a Jan contornava as
situações mais complicadas e incertas na sua maratona particular contra o
câncer. Ainda retomei o ritmo em mais dois quilômetros, o 18º e o 21º, e
terminei correndo no meu limite.
Tudo
isso deu um pouco menos de 2 horas e 35 minutos – o que não é nada brilhante
para uma meia maratona. Talvez a Jan merecesse uma prova mais bem corrida e uma
medalha mais decentemente conquistada. Mas foi uma experiência totalmente nova
que me rendeu algumas observações:
- (É óbvio que) não se vai de meio paradona a meia maratona em três meses de treino indisciplinado.
- Andar, numa meia
maratona, não mata ninguém. Muito pelo contrário, terminei bem viva e não
tive dor nenhuma no dia seguinte (quero chamar isso de maturidade, hehehe).
- O limão e a corrida são mais legais quando, de alguma forma, são compartilhados com amigos. E os amigos, por sua vez, são os ingredientes que os tornam mais gostosos.